Saudações tenebrosas...

Você ultrapassou o portal da realidade... Seja bem vindo(a) á um mundo onde os contos criam vida, mesmo quando falam de morte...

Sidney Leal

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

“O Despertar da Fé”

Com os olhos fechados ele seguia um roteiro pré-definido em sua mente. Após meses de estudo e ensaio finalmente poderia executar aquela apresentação de que tanto ansiava. Falava com a certeza da repetição, com a certeza do texto bem decorado. E com a mão direita erguida aos céus segurando uma bíblia entoava o sermão por ele escrito e por seus superiores anteriormente aprovado. Notou que entre os transeuntes que ali passavam indiferentes a sua apresentação, algumas poucas pessoas paravam e se sentavam nos bancos ou na grama do jardim daquela praça municipal e lhe cediam a atenção que pedia. Os olhos semiabertos constataram esta evolução, pois estava ali falando as moscas desde as oito horas da manhã, recitando, louvando, e chamando as pessoas que passavam para ouvirem ‘a palavra do senhor’ que ele apresentava. Escolhera a pequena elevação de concreto onde se encontrava o busto de latão de um grande filosofo Brasileiro, e onde se lia numa placa os dizeres: “Acreditar é mais fácil do que pensar. Por isso existem mais crentes do que pensadores”. Sorriu levemente com escárnio da ironia deste encontro, e enquanto cobria o busto e escondia a blasfêmia daquele pensamento, ouviu uma voz que lhe repreendia:
- O que esta fazendo é crime sabia? Falou um jovem tatuado enquanto coçava o seu cavanhaque desgrenhado analisando a cena.
- Fora rapaz! Volte à escuridão de seu mundo. Respondeu o homem de fé ajeitando o manto de sua igreja sobre o busto de metal. O rapaz tirou uma foto com o celular e foi embora indignado. Nada atrapalharia sua pregação! Pensou sorrindo para uma igreja católica que a poucos metros dele se apresentava.
 Era uma manhã quente de quarta-feira, vestia um terno barato de cor preta que o fazia transpirar, na gola da camisa branca sem gravata fechada até o último botão, se formava manchas de umidade do suor. Às vezes sentia o ar pesado e a uma dificuldade em respirar, e com o dedo indicador mais de uma vez, tentou afrouxar a gola da camisa deixando a garganta livre para respirar. Neste momento fez uma pausa, colocou a bíblia que carregava sobre uma valise de couro negro que estava aos seus pés, e comprou uma garrafinha de água de um ambulante que sentado também prestava atenção em suas palavras. Tirou do bolso uma moeda para pagar pela bebida, mas o ambulante não quis, ele agradeceu com um: - Obrigado irmão! Enquanto bebia olhava satisfeito ao redor, seu público aumentava consideravelmente, os pastores estariam ali logo, logo, e poderiam ver como ele estava se saindo bem em seu último teste para líder pastoral. Quase não se continha de satisfação, pois agora se formava uma pequena multidão ao seu redor. Sentia-se iluminado! Pois dezenas de olhos estranhos buscavam em suas palavras orientação e consolo para os desafios da dura vida.
De repente deixou a garrafinha de água cair, assustado, quando entre aqueles olhos desconhecidos notou que sua esposa e filha se mantinham compassivas em pé à distância, com olhares tristes direcionados para ele. Aquilo não era possível! Pois as duas estavam em casa trancadas no quarto com suas gargantas cortadas! Jogadas no chão em meio a uma enorme poça de sangue coagulado. Tinha esta visão em mente, pois ficara as observando durante toda a madrugada, sentado num pequeno banco ao lado de seus corpos frios. Já estava de terno e cochilava com a cabeça arqueada para trás, quando o despertador lhe avisou que chegara a hora de seu compromisso e saiu de casa, vindo direto para a praça.
Estava terrivelmente assustado com aquela visão, e mais de uma vez passou as mãos geladas de terror nos olhos semiabertos pela força do sol do meio dia que se aproximava. Esfregou uma, duas vezes, fazendo com que o suor quente do dia de sol se misturasse com o suor gelado da noite do assassinato; Mas como as aparições insistissem em ainda permanecer ali estáticas com olhares tristes, desistiu de afasta-las e abaixou-se para pegar sua bíblia, mas ela sumiu! Não estava em cima de sua valise, e nem no chão! As pessoas ao seu redor se aproximavam ainda mais dele, ao seu redor se formava um circulo de quase uma centena de pessoas estranhas que lhe cobravam com os olhos sedentos de suas palavras acalentadoras, elas não falavam, não com voz, não com palavras que poderiam ser escutadas por pessoas comuns. Mas ele ouvia claramente o clamor de seu pedido:
- Fale mais! Mais! Mais! Os olhos de todos se arregalavam e de suas bocas inertes nenhum som saia, mas em sua mente ainda as escutava, o clamor se fazia cada vez mais alto.
- Mais, mais! Queremos mais!
- Eu não posso! Sem minha bíblia eu não posso... Ajudem-me, onde esta minha bíblia alguém a viu? A pergunta se perdia no vazio daquela turba de ignorantes que o cercava cada vez mais perto. No desespero, lembrou-se da valise a abrindo descontroladamente. Nem olhava em seu interior, começava a se preocupar com sua segurança. Agora mais de uma centena de pessoas desconhecidas o cercava, estavam a poucos metros de distancia, e eram tantos que não conseguia ver mais nada ao seu redor. Em suas faces vazias de emoção, olhos inexpressivos sedentos das palavras, a fome de sua fé os consumia e naquele pastor jogavam o peso de seus anseios e esperança.
Quando sua mão tocou em algo, podia sentir a bíblia com seus dedos. Mas ao retira-la notou a manga de seu terno sujo em um liquido quente, mãos e a própria bíblia gotejavam como se imersas em sangue! Aterrorizado percebeu que as pessoas estavam perto demais e ele não conseguia gritar, eles o tocavam como se tentassem lhe arrancar um pedaço, e de suas bocas tortas se formava um sorriso maligno... 
CONTÍNUA no livro: "13 Contos - Da Loucura e dos Sonhos - Sidney Leal