Saudações tenebrosas...

Você ultrapassou o portal da realidade... Seja bem vindo(a) á um mundo onde os contos criam vida, mesmo quando falam de morte...

Sidney Leal

quinta-feira, 13 de junho de 2013

"Se Permita" (conto 'suavemente erótico')

Me foi feito um desafio por parte de meus amigos escritores e aceitei, com vocês meu primeiro conto ' suavemente erótico' rsrs

“Se permita”
Sidney Leal
Era uma manhã nublada, um vento frio vez ou outra se chocava com as grandes vidraças daquele prédio cinzento perdido na infinita floresta de concreto e aço. Mais um, apenas mais um... Doralice apoiava um dos braços numa das janelas de vidro do quinto andar, reflexiva não notara quanto tempo perdeu ali refletindo sobre sua vida... Vinte anos de carreira naquele escritório, possuía casa, carro, um gato... E um enorme vibrador, seu companheiro de solidão... Solteira, sem filhos, não conseguia se lembrar da última vez que transou – Deus com quarenta e dois anos, não se lembrava da última vez que deu uma boa foda! – Refletiu com o coração apertado no peito, com vontade de chorar. Ontem no velório de Aline sua melhor amiga – morreu jovem tinha sua idade quando perdeu a batalha para o câncer de mama – Durante as horas que passara chorando olhando para o rosto pálido, mas aliviado de sua amiga no caixão. Refletiu sobre tudo, refletiu sobre todos, e vendo o marido e os filhos de Aline ao redor da Mãe lhe prestando homenagem, se despedindo da guerreira com que viveram. Doralice sentiu uma pontada em seu peito, estava muito triste sim, mas aquilo que sentia era outra coisa... A falta de ar, a disritmia de seu coração, aquilo significava que logo. Logo poderia ser ela ali naquela fria caixa de madeira. E de joelhos Doralice era apoiada pelas pessoas que estavam no velório, enquanto desabava com a agulhada da realidade que lhe cutucou o coração, morreria sozinha! Pedia que este dia estivesse longe, mas sabia que morreria sozinha.
Cuidou de seus pais a vida toda, sem culpa, com a devoção que todos os filhos deveriam ter por seus velhos, por seus antepassados. E agora refletindo, não podia culpa-los por não ter encontrado alguém, não era culpa deles mesmo, a culpa por estar sozinha era dela – Pegou um copinho plástico e encheu de café sem açúcar – Sorveu de uma vez o cafezinho quente – Poha! Largou o copinho que se espatifou no chão de mármore do escritório, nenhum de seus colegas de trabalho notara nada, todas aquelas pessoas que como ela trabalhava anos ali juntas, nenhuma delas notara que havia se queimado. Apenas imaginava como seria quando morresse, será que algum destes ‘robôs’ se comoveria de verdade? Riu com escárnio, pois sabia a resposta.
- Droga meu blazer, minha saia, minha meia calça! Correu para o banheiro feminino, e molhando alguns papéis toalha tentou sem sucesso amenizar as manchas de café. Quando entram no Banheiro.
 - Bom dia Doralice!
 - Bom dia Martha.
- Fiquei sabendo de Aline... Que triste hein, meus pêsames, sei que ela era sua amiga... Mas o que faz aqui a esta hora? Não passou a noite no velório?
- Sim, e depois fui ao cemitério também... É que queria ver o andamento de uns contratos e...
- Doralice, vá pra casa descansar e volte amanhã. Como sua chefa não posso deixar você trabalhar cansada como você está aparentando. Você se olhou no espelho hoje?
Doralice consentindo com um sorriso amarelo, sabia que não se olhara hoje, na verdade fazia anos que não se olhara como mulher. E ao sair Martha ainda disse:
- Somos muito novas, você tem quantos anos mesmo?
- 42...
- Nossa pensei que tinha minha idade cinquenta e... Deixa pra lá, vá descansar menina, você está precisando! Fechando apressadamente a porta a suas costas.
Sozinha Doralice levantou o rosto e viu o reflexo de uma estranha, uma senhora até de boa aparência... Com leves traços de rugas, alguns fios brancos de cabelo lhe escorrendo pela face, quis chorar, mas respirou fundo, tirou do fundo de sua bolsa, de uma parte que pouco usava um pequeno estojo de maquiagem. E depois de alguns minutos se maquiando, soltou os cabelos os escovando suavemente, puxou um pouco sua saia deixando-a mais curta, suas pernas estavam bem depiladas – graças a Deus! – Notou que se formou o primeiro sorriso verdadeiro de dias, soltou dois botões da camisa social branca e pode ver que o volume de seus seios se destacava por debaixo do blazer preto feminino que usava. Hoje seria o dia de mudança do rumo de sua vida!
Enquanto se despedia rapidamente dos olhares curiosos de seus colegas, que só então notaram uma mudança em Doralice, mas se perguntássemos a qualquer um o que teria mudado poucos saberiam disser, de tão condicionados a ver a austera supervisora de negócios. Doralice desceu pela escada rumo à porta de entrada no sentido da rua. Iria embora de ônibus, ainda não estava bem o suficiente para dirigir, e passando por alguns carros estacionados se olhava discretamente, e um estranho vigor, uma sensação de poder lhe abraçou o coração, chegando ao ponto de ônibus estava se sentido forte, poderosa, e o mais surpreendente se sentia gostosa, desejável!
Atrapalhada, pois nunca pegara ônibus para ir ou vir ao trabalho, teve de se informar com algumas pessoas que estavam no ponto com ela. Notara que alguns homens enquanto a respondiam, seguiam com os olhos desejosos em direção aos seus seios. Uma sensação que nunca sentira, nem mesmo quando jovem. Neste grupo de pessoas que aguardavam o ônibus estava um homem de traços fortes, moreno de cabelos negros queixo suavemente marcante. Como ela lia a descrição dos guerreiros gregos num velho livro, o misterioso homem usava um terno preto bem alinhado, e segurava uma pequena valise sem alça. Doralice ao observar as mãos do homem, sentiu um leve calor e um pequeno desconforto entre as pernas, o homem possuía grandes mãos, fortes de veias acentuadas. Nesta última observação, molhou os lábios de desejo pelo estranho.
Perdida em devaneios eróticos, nem percebeu que o ônibus parara a sua frente se preparava para ir embora:
- Hein moça! Gritou o homem de seu desejo.
- Nossa! Desculpe-me motorista é que eu... Obrigado senhor?
- Claúdios, este é meu nome.
- Nossa como pode... É de origem grega?
- Sim, herdei de meus avôs... Doralice nada mais escutava, apenas via silenciosamente os lábios daquele homem se moverem, enquanto o despia com um desejo que lhe subia pelas pernas. O caminho era longo, e o ônibus enchia estranhamente, pois não estavam em horário de pico ou trânsito. O fato é que a cada ponto que passavam o número de pessoas aumentava, e Doralice se via prensada atrás por Claúdios, que visivelmente constrangido tentava sem sucesso não encostar na mulher... CONTÍNUA no livro: "13 Contos - Da Loucura e dos Sonhos" - do escritor Sidney Leal